segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Doria, da elite, atraiu votos na periferia. Como explicar?

Rovena Rosa/Agência Brasil
O prefeito eleito de São Paulo, João Doria (PSDB), obteve a maioria em praticamente todas as zonas eleitorais paulistanas. Apesar de seu perfil elitizado, ele conseguiu atrair eleitores na periferia. Como explicar este fenômeno?

Uma notícia da Folha de S.Paulo coloca muito bem a situação: “[Doria] personaliza o protesto do eleitor no centro das manifestações pró-impeachment. Com alta renda e escolaridade, empresário e ‘antipolítico’, Doria capitalizou os reflexos das crises nacionais sobre os valores locais, utilizando aquele mais caro ao paulistano – o trabalho”.

Traduzindo: a economia diminuiu de ritmo nesse ano. Muitas pessoas perderam renda e/ou perderam seus trabalhos. Elas acreditaram, de maneira muito pragmática, que Doria é a pessoa mais indicada para fazer com que o crescimento seja retomado. O slogan dele “acelera São Paulo” é muito revelador dessa intenção.

Vou compartilhar aqui uma experiência pessoal. Lembro de quando entrei na Universidade de São Paulo. Vinda de família humilde, aos 17 anos, ouvi, em uma palestra, dizerem que o importante era estudar e permanecer o máximo possível na universidade. No meio da palestra perguntei: “e como eu faço para pagar a minha passagem de ônibus?”.

O Doria soube dialogar com este tipo de demanda, de anseio. Cito um belo artigo que o jornalista Guilherme Weffort publicou no seu Facebook: “O João trabalhador deu segurança, olhou no olho, se mostrou disposto a acelerar a cidade. Por mais que nós, mega-esclarecidos universitários saibamos a carga de cinismo desse discurso, foi isso que atraiu as periferias. Por mais distante que o João milionário esteja do João trabalhador (o da propaganda e os milhões de Joãos por aí), o pobre escolheu o cara”.

O preconceito contra o voto do pobre

Sobre este ponto gostaria de fazer uma reflexão. Existe um mega preconceito, inclusive da esquerda, em relação ao voto do pobre. Eu ouvi uma vez, e nunca vou esquecer, a seguinte frase: “a massa é amorfa”.

Portanto eu coloco o seguinte: por mais que haja problemas no discurso do Doria ele se conectou com os desejos das periferias. E isso é importante. Porém, infelizmente, temos que lembrar que em geral a voz da periferia é ouvida somente em época de eleição.

A discussão realmente importante

Eu tenho divergências com o projeto político do Doria. Sou contra, por exemplo, a revogação do limite de velocidade, inclusive nas marginais. Também não apóio a remoção de ciclovias. E aí é que está o ponto.

Infelizmente, o debate político ainda é pouco pautado por este tipo de discussão. O cashmere do Doria ainda aparece mais do que suas propostas.

Existe um desconhecimento enorme em relação às atribuições de cada ente público e sobre como a população pode (e deve) representar um papel ativo na definição das políticas públicas.

Irei recorrer novamente à experiência pessoal (voltando ao caso da universidade). Eu entendi, somente após muitos anos, que seria possível pleitear um apoio estudantil ou outro tipo de ação governamental que ajudasse a bancar a minha permanência na universidade, por exemplo. Que eu poderia me dedicar aos estudos. Que eu poderia mais.

Nesse momento eu lembro da frase do Paulo Freire: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”. Foi apenas depois de adquirir bastante conhecimento que saí dessa dicotomia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário