sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Qual a responsabilidade da sociedade no caso Domingos Montagner?

Foto: B S K/freeimages.com
Tive o privilégio de assistir à peça Mistero Buffo, da Companhia de Teatro La Minima, na qual o ator Domingos Montagner se divide em vários personagens na adaptação da comédia de Dario Fo. Mal sabia eu que estaria presenciando um dos últimos espetáculos deste grande ator que se foi prematuramente nessa quinta-feira (15). Presto aqui minhas homenagens à sua família e aos seus colegas de trabalho (em especial à atriz Camila Pitanga, que esteve envolvida no acidente).

Mas o objetivo deste post é falar das circunstâncias em que ocorreram a morte do ator e, principalmente, da responsabilidade do poder público, da imprensa, da sociedade em geral diante desta tragédia.

Segundo reportagem publicada no Portal G1, a área não tinha risco de sinalização indicando risco de afogamento no local embora o próprio delegado que cuide do caso, Antônio Francisco Filho, tenha dito ao portal que “é comum afogamento naquela região”.

Ainda de acordo com a reportagem, o local do acidente foi reinaugurado, recentemente, pela Prefeitura de Canindé de São Francisco. As placas que indicavam o risco de afogamento e os salva-vidas foram retirados da área.

O delegado declarou ao G1 que está aguardando a manifestação do Ministério Público para investigar qual a responsabilidade da administração pública neste caso.

Aliás, ao invés de o próprio título da reportagem ressaltar a falta de sinalização do local, as investigações do MP, está assinalado somente: “Morte de Montagner: 'Grande e absoluta tragédia', diz delegado”.

Não, senhor delegado, não concordo com esta explicação. Não, senhor jornalista, não concordo com este título.

Eu tive a curiosidade de entrar no site da Prefeitura de Canindé de São Francisco.

Não há uma nota sequer sobre a tragédia, mas é possível visualizar uma notícia, datada de fevereiro de 2016, a qual diz que a prefeitura iria colocar guarda-vidas durante o carnaval na Prainha (local do acidente com Montagner).

A nota ainda diz que esse é “um dos pontos turísticos mais visitados nos dias de festa”.

Descobri um levantamento, feito pelo site ONDDA, que mostra que ao menos dez pessoas morreram afogadas no Rio São Francisco somente em 2016 (dá mais de um morto por mês).

Volto aqui à pergunta colocada no título: “qual a responsabilidade da sociedade nesta tragédia?”

1. Precisamos cobrar mais campanhas de prevenção a afogamentos. Medidas simples, como por exemplo aprender a boiar, são fundamentais. Este post contém muitas dicas úteis para evitar afogamentos e para sair do sufoco. 

2. Precisamos cobrar mais aulas sobre situações de emergência. Aí você pode falar da dificuldade que seria ter piscinas, por exemplo. Concordo. Mas acredito que todo mundo deveria saber medidas básicas de primeiros socorros e de sobrevivência na água. Aprendemos tantas coisas que não utilizamos no futuro (lembro até hoje de uma aula que tive sobre tipos de nuvem), e não sabemos direito como lidar com situações de emergência.

3. Precisamos cobrar mais sinalização adequada nos locais de banho. Você pode dizer que o Brasil é imenso, que há milhares e milhares de quilômetros de rios, mas em geral o povo ribeirinho sabe onde é perigoso nadar e onde não é. É só colocar no local uma placa de perigo e um salva-vidas para os períodos de visita intensa.

E o principal: precisamos parar de encarar estas mortes com tanta naturalidade. É fatalidade, é. É tragédia, é. Mas dá para adotar medidas para se evitar novos casos. Cada pessoa que morre afogada é uma vida que se esvai. Vida cheia de possibilidades, de sonhos, de planos não realizados.

A sociedade precisa aprender a preservar ao máximo a vida humana, nosso maior bem.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Como fica o Brasil sem Dilma Rousseff: melhor, pior ou tanto faz?

Manifestantes pró-Dilma em frente ao Palácio da Alvorada. José Cruz/Agência Brasil
E agora José? O impeachment de Dilma foi aprovado na quarta, dia 31, por 61 votos a 20. Dilma embarcou no dia 06 para Porto Alegre, onde tem residência. A pergunta que fica agora para os brasileiros é: como fica o Brasil agora?

A ideia para este artigo surgiu de uma pergunta no Yahoo! Respostas, onde há os que dizem que o país ficou melhor, outros que piorou, fora quem acredita que “tanto faz” e que “era melhor saírem os dois”.

Irei comentar aqui os três pontos de vista citados (melhor, pior e tanto faz).

Para quem acha que o país ficou melhor

Eu, pessoalmente, estou indignada (como defensora da democracia que sou) com o fato de que o país está sendo submetido a um plano de governo contrário ao que foi aprovado na última eleição.

Em relação a isso, a Escola de Governo aprovou uma nota em que defende, entre outros pontos, a aprovação da emenda constitucional n°52/2011, que obriga todos os entes federativos a se comprometerem com um Programa de Metas como o já existente na cidade de São Paulo e em outras dezenas de cidades brasileiras. “Isso protege a população de oportunistas”, diz o texto (confira a íntegra aqui). 

Outro ponto importante defendido no texto é a criação de um pacto nacional pela realização de um plebiscito no qual o povo brasileiro responda se deseja ou não novas eleições.

Gera ainda preocupação a repressão praticada pelas polícias aos manifestantes que não reconhecem a legitimidade no atual governo. Isso é uma postura totalmente antidemocrática, e ponto.

Para quem acha que o país ficou pior 

Eu torço pelo Brasil. Não sou defensora do “quanto pior melhor”, pois é aqui que resido, aqui que ganho meu pão de cada dia. Neste sentido, espero que o país consiga sair desta grave crise econômica e que retome o caminho do crescimento com Justiça e equidade.

A oposição ao governo Temer deve ocorrer dentro dos limites da democracia também. Fazer como o grupo de opositores ao governo que atacou dois repórteres do UOL em Brasília é um ataque à Constituição, à liberdade de expressão e à sociedade.

A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) fez uma nota sobre o incidente, em que afirma que a imprensa livre “é condição indispensável de uma democracia” (confira a íntegra aqui). 

Para quem acha que tanto faz

Esse é o maior risco que podemos correr, o da descrença na política. É apenas por meio dos políticos e desde processo de debate (por mais problemas que ele tenha) que iremos evoluir como sociedade.

Acreditar que todos são “farinha do mesmo saco” é uma postura que ignora aos que fazem um trabalho sério e correto, mantém o status quo e é um posicionamento individualista. Eu fiz um artigo sobre este assunto com algumas questões que reproduzo aqui.

“Pois quanto mais nós discutirmos os assuntos "chatos" como política, economia, contratos, quanto mais nós soubermos colocar a nossa visão, nos posicionarmos sabendo ouvir também a opinião do outro, mais nós cresceremos enquanto profissionais e enquanto cidadãos.

O Brasil precisa, cada vez mais, de gente que saiba participar das polêmicas. E que saiba respeitar os direitos do outro”.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Precisamos abrir os olhos. “Às vezes o suicida está na sua frente e você não vê”

T. Al Nakib/freeimages.com
Dois casos trágicos chamaram a atenção da sociedade nesta semana. Segunda-feira, 29, o motoboy Carlos Ti On Martins Kon, de 41 anos, segundo testemunhas, jogou o filho e depois se atirou no vão do prédio do Fórum Trabalhista da Barra Funda, em São Paulo. No mesmo dia foram encontrados, no Rio de Janeiro, os corpos de Nabor Coutinho, 43, de seus dois filhos e de sua esposa. Ele é suspeito de ter matado os três e depois ter cometido suicídio. 

Nos dois casos houve cartas que teriam sido escritas antes das mortes. No caso de Kon, o bilhete dizia: “às vezes tem um suicida na sua frente e você não vê”. A carta do episódio Nabor mencionava, entre outros pontos: “Sinto um desgosto profundo por ter falhado com tanta força, por deixar todos na mão. Mas melhor acabar com isso tudo logo e evitar o sofrimento de todos”.

Apenas as investigações policiais podem elucidar os casos. Porém, em função de sua repercussão, estes casos servem como mote para aprofundar a reflexão sobre o tema.

Nós vivemos em uma sociedade que cobra sucesso, saúde e que evita a dor e a morte. Só que isso cobra um alto preço. O psiquiatra Diogo Lara contou à Revista Psique alguns dados preocupantes.

“A pergunta do estudo pede para o voluntário responder se alguma vez já passou pela sua cabeça a ideia de se mater. Enquanto 40% nunca tiveram tal tipo de pensamento, 43% já pensaram alguma vez em suicídio, mas não seriamente. Já 11% da amostra pensaram seriamente em se matar e outros 6% já haviam tentado o suicídio”.

Dr.Lara ainda relata, na entrevista, que as taxas de suicídio têm aumentado constantemente no Brasil, principalmente em homens e pessoas com menos de 50 anos de idade.

Um amigo me perguntou se era de fato verdade que existe uma regra “não dita” nas redações de evitar noticiar casos de suicídio. Expliquei a ele que existe sim, um cuidado para que seja evitada a “glamourização” dos casos. No entanto, é necessário romper o silêncio e falar sobre o tema, até para ajudar quem precisa de ajuda.

Abrindo a caixa-preta da morte

Recomendo o livro “Sobre a Morte e o Morrer”, de Elizabeth Kubler-Ross. Ele ficou famoso por descrever os “cinco estágios” enfrentados pelas pessoas que estão morrendo: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação.

No meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), entregue em 2005, estudei o tema dos Cuidados Paliativos, que são um conjunto de tratamentos cujo objetivo é cuidar dos sintomas físicos, sociais, emocionais e espirituais das pessoas fora de possibilidades de cura.

Na ocasião eu conversei com o Dr. Luís Saporetti, do Grupo de Cuidados Paliativos do HC-USP, a respeito das pessoas que desejam a morte. “A natureza do ser humano é viver”, declarou na ocasião, explicando que muitos pacientes chegaram ao consultório pedindo isso, mas que depois mudam de ideia. “Você quer acabar com o sofrimento ou com o sofredor? Você, quando mata as pulgas, mata o cachorro também?”, questionou.

Ou seja, é importante abordar o tema da prevenção do sofrimento e da dor. Dr. Lara defende uma estratégia que contemple desde a infância, com a proteção a abusos emocionais, e que passa também por técnicas de processamento de traumas.

Por isso mesmo a minha mensagem final é: hoje em dia o tratamento avançou muito. Há muitas técnicas novas na psicoterapia, na farmacologia, que fazem com que seja possível ter grande qualidade de vida. O primeiro passo é reconhecer o problema, pedir ajuda e melhorar.

Não dá para ficar neutro quando se contempla a vida humana em sofrimento. Nossa existência vai muito além disso.