quinta-feira, 26 de novembro de 2009

A história da “garota do lixo”

Comecei com um título bem impactante, pra gerar audiência (rsrsrs). Bem, reproduzo aqui mais um post feito para o Blog Impressão, da minha turma de pós em jornalismo online. Este, eu gostei bastante de fazer. Fala sobre alternativas para financiamento de reportagens no mundo online.

Atualmente, uma das grandes questões que envolvem a internet diz respeito à viabilidade econômica dos veículos. Muito se discute, mas pouco consenso existe quanto a qual modelo seria mais viável, se é interessante manter “aberto” ou “fechado” o conteúdo dos portais de informação na rede mundial de computadores.

Para ir além desta polêmica, gostaria de contar a história da jornalista norte-americana Lindsay Hoshaw – que se auto-apelidou de Garbage Girl, ou “a garota do lixo” - e de como ela se tornou um exemplo das alternativas que surgem para o financiamento de reportagens.

Ela é uma repórter freelancer, da região da Califórnia, especializada em Meio-Ambiente. Ela queria fazer uma reportagem sobre uma larga faixa de lixo que cobre parte do Oceano Pacífico. O The New York Times interessou-se pela história, porém não se dispôs a cobrir os custos da reportagem.

A fim de obter os US$ 10 mil necessários para realizar a viagem de barco que a levaria à “massa de lixo flutuante”, ela procurou o site Spot.us, uma organização que ajuda repórteres a obter doações para seus projetos. Veja o vídeo em que ela explica sua empreitada:




A questão gerou polêmica: para alguns, a história soava como exploração. O The New York Times “forçando uma repórter a implorar com uma caneca virtual”. Hoshaw não pensava assim: para ela, era uma oportunidade que não poderia deixar passar. Para o Spot.us, era uma forma de o público financiar o jornalismo desejado. Já o The Times, em artigo, disse que era “um passo em direção a um mundo inimaginável poucos anos atrás”.

Hoshaw obteve o financiamento, fez a viagem - usando um blog e um álbum do flickr para mostrar todos os ângulos da matéria – e, por fim, saiu a reportagem no Times (que muitos acharam incompleta, por não expor o lado humano da viagem, como no blog).

A própria jornalista, em seu blog, fala sobre a experiência: “as pessoas querem se sentir conectadas às histórias que elas estão lendo e às pessoas que as escrevem. As pessoas querem contribuir, querem ser parte do processo”.

Ou seja, neste modelo, mais colaborativo, as pessoas se sentiram mais parte da história, afinal elas contribuíram financeiramente, acompanharam o dia-a-dia de Lindsay, comentaram, enfim, estiveram próximas.

Longe de considerar este “financiamento colaborativo” de reportagem o futuro único da internet, é importante observar os modelos novos que estão surgindo, afinal, se o sisudo The New York Times abriu-se a esta alternativa, é sinal de que a história de Lindsay é parte do futuro do jornalismo.

Quem quiser saber mais sobre este caso:

- Blogueiro Maurício Stycer, do IG: “NY Times” aceita financiamento externo para reportagens

- Artigo do site Mashable: Lixo ou tesouro? The New York Times tenta “Crowdfunding” (algo como financiamento coletivo) – em inglês
- Jeff Jarvis, do Huffington Post: Caridade ou colaboração para o The Times? – em inglês
- Perfil da Lindsay Hoshaw no Twitter: “The Garbage Girl” (a garota do lixo – em inglês)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Pela ONG Politicus

Acho que tem casos em que a gente não pode ser “só” jornalista, apenas noticiar uma situação. Há situações em que a gente acaba se envolvendo mesmo.

Me sensibilizei muito com a história da ONG Politicus. São dois irmãos que, sozinhos, mantêm um serviço de envio de mensagens a parlamentares. Eles correm o risco de fechar, por falta de apoio intelectual e financeiro. O projeto deles é algo bacana, mas que muita gente não valoriza, pensa: ah, mas nenhum político presta mesmo, para que eu vou me preocupar?

E quando a entidade vai buscar apoio, os irmãos contam, é muito mais fácil obter ajuda pra peixinhos, criancinhas, mas quando se trata de políticos todo mundo recua.

Não é que eu queira trocar uma coisa pela outra, ao contrário. Sou super a favor da causa dos animais, das crianças, dos idosos e tudo mais. Só acredito que a gente também precisa dar espaço nas nossas vidas para a coletividade, para as decisões políticas que afetam a nós tomos.

Afinal, se todos roubam, será que eles não roubariam menos se você fizesse a sua parte e se mobilizasse?

Fiz uma reportagem pro site do Diário do Grande ABC, sobre o Politicus, e achei que a história poderia ter mais alcance. Pensando nisso, lancei o assunto na lista de e-mails dos jornalistas da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), como quem não quer nada.

E não é que o assunto acabou interessando o pessoal do meu ex-emprego, da CBN? Espero que esta história vá adiante.

Uso ainda este espaço para espalhar a história mais ainda, quem sabe alguém que esteja aí perdido nesta blogosfera não se sensibilize e pense um pouco na ONG Politicus, e decida fazer algo. É assim que vamos vivendo: cada um faz um pouco e seguimos adiante.

Sobre o Twitter do Noblat

Desculpem o sumiço do blog, ando estudando muito. Quando posso, coloco alguma coisa no Twitter, que aí é mais rápido.

Segue abaixo mais um post da minha aula de pós em jornalismo online:

Política e novela? Só no Twitter do Ricardo Noblat

Normalmente política é coisa de homens sérios, sisudos, enquanto novela é assunto de “mulherzinha”. Mas o colunista Ricardo Noblat, de O Globo, (autor também do Blog do Noblat) consegue unir em seu perfil no Twitter estes dois assuntos tão distantes de uma forma interessante e bem-humorada.

Durante o dia, o jornalista se dedica a divulgar notícias quentes (algumas em primeira mão), sobre os bastidores da política. Como no caso da estreia do filme Lula, Filho do Brasil, que abriu no último dia 17 o Festival de Brasília.

Um dos privilegiados que teve acesso aos convites, Noblat “tuitou” diretamente da sala de exibição, dando o clima dos preparativos: “Luiz Carlos Barreto, o produtor do filme, acaba de fazer um auê danado. Está preocupado com a superlotação. Não há mais lugar nem no chão”, declarou.

“Começou o filme. Já tem gente fungando ao meu lado. Fungando no bom sentido”, completou, minutos depois.

Isso durante o dia. À noite, Noblat se dedica a comentar as novelas via Twitter, ou melhor, ele sempre fala de uma novela, a das oito da Rede Globo. Primeiro, o alvo era “Caminho das Índias”; agora, ele está ligadíssimo em “Viver a Vida”.

“Foi só saber que será pai que Marcos já começou a afinar com Helena. Filho faz milagres”, disse ele, na quinta-feira. Minutos depois, se corrigiu: “Puxa, errei feio. Marcos não afinou com Helena. Acaba de dizer que o filho deles está vindo na hora errada”.

O trabalho de Ricardo Noblat no Twitter (hoje, ele já soma mais de 21 mil seguidores) é muito interessante, porque soma notícias exclusivas sobre um tema que costuma ser pesado, a política, a um momento de descontração no final do dia, quando ele se dispõe a falar de Viver a Vida.

Acho que o perfil dele agrega algumas das características mencionadas por Lon Safko, autor de The Social Media Bilble, conforme post anterior do próprio Blog Impressão, que fala dos 10 mandamentos das mídias sociais.

Noblat posta com freqüência (há casos em que há mais de 100 mensagens em um único dia); ele é muito criativo, afinal não é qualquer um que consegue juntar política e novela; o jornalista participa da conversa, sempre respondendo aos internautas, e está muito conectado, postando até mesmo de uma sala de cinema, conforme já dito.

domingo, 8 de novembro de 2009

Procurando o ouro nas contribuições dos internautas

Estou fazendo uma aula de Jornalismo Online na minha Pós em Comunicação Jornalística, na PUC-SP. A turma tem um blog, chamado Impressão. Reproduzo abaixo a análise feita para o blog da classe:

Procurando o ouro nas contribuições dos internautas

A contribuição dos cidadãos no processo jornalístico - chamada de "jornalismo cidadão" - é abordada no livro de John Kelly, "Red Kayaks and Hidden Gold: the rise, challenges and value of citizen journalist" (Caiaques Vermelhos e o Ouro Escondido: o crescimento, desafios e valor do jornalismo cidadão, em tradução livre). O livro está disponível para download. Clique aqui.

O chamado jornalismo cidadão pode ser definido, diz Kelly, como: "não jornalistas engajados em atividades tradicionalmente realizadas por jornalistas".

Acredito que um dos grandes problemas desta forma de jornalismo é saber filtrar, dentro do conteúdo enviado pelos internautas, contribuições que possam realmente fazer a diferença na cobertura jornalística.

Para ilustrar esta dificuldade, irei utilizar o exemplo da explosão de uma casa de fogos de artifício ocorrida no último dia 24 de setembro em Santo André, caso no qual a empresa onde eu trabalho, o Diário do Grande ABC, procurou utilizar o chamado "Conteúdo Gerado por Usuários" (User Generated Content, na sigla em inglês), como complemento à cobertura jornalística. De fato, neste caso, os internautas deram dicas valiosas.

Um exemplo: eles começaram a enviar mensagens demonstrando preocupação com os estudantes, já que havia uma escola próxima ao local do acidente. Com base nesta informação, pudemos checar, junto à instituição, a situação do local e divulgamos, poucos minutos depois, via Twitter, que a escola não havia sido afetada pela explosão.

Eles também enviaram imagens, vídeos, fotos da tragédia, complementando a cobertura jornalística.





Mas este tipo de contribuição é como o "ouro" citado por Kelly: aparece depois de muita garimpagem. O que mais houve neste dia foram mensagens como: "ah, eu ouvi a explosão da minha casa" que, apesar de serem a expressão de um sentimento legítimo dos cidadãos, não continham um dado relevante que pudesse ser utilizado na cobertura do caso.

Ao todo, a reportagem principal sobre a explosão recebeu 260 comentários, isso sem contar as mensagens via e-mail, Twitter, o que dá uma dimensão do trabalho que é avaliar todo este conteúdo, já que outras dezenas de contribuições não foram ao ar (o principal motivo é a utilização de conteúdo ofensivo).

Portanto, na minha opinião, o maior problema, hoje, do chamado jornalismo cidadão é saber encontrar em meio às contribuições dos internautas o ouro escondido, a informação que pode mudar o rumo de uma reportagem, algo que demanda profissionais preparados para saber transformar a cobertura jornalística não mais em um processo de mão única, mas em uma conversa na qual os internautas possuem voz e vez.