terça-feira, 5 de julho de 2016

Carta aberta ao Brasil a um mês da Rio-2016

Brasil, a 30 dias para o início dos Jogos Olímpicos Rio 2016, você sabe que o cenário é preocupante.
O governo do Rio de Janeiro decretou calamidade pública e possui um rombo nas contas públicas de R$ 19 bilhões. A prometida linha do metrô vai estrear a quatro dias do início dos jogos (míseros quatro dias de antecedência!) e os compromissos ambientais não foram cumpridos. O FMI (Fundo Monetário Internacional) prevê que o PIB brasileiro irá encolher 3,8% neste ano.
Estas notícias podem ser vistas em detalhes na imprensa (recomendo a você estas reportagens da BBC e da Folha de SP que saíram hoje).
Brasil, eu quero nesta carta é te mostrar como os Jogos e a economia estão afetando a minha vida e a minha carreira ao longo destes anos.
Antes da crise
Em outubro de 2009, quando os Jogos Olímpicos foram anunciados, confesso que pouco pensava em esporte, ou em Rio 2016. Aquele foi o primeiro ano em que houve retração no PIB (0,2%) e o primeiro resultado negativo da economia desde 1992.
Na época, eu não percebi os efeitos desta retração no bolso. Pelo contrário, no ano seguinte consegui um emprego mais bem remunerado na esteira do crescimento de 7,5% registrado na economia em 2010 (foi a maior taxa desde o Plano Cruzado).
Em 2012, eu fiz o meu casamento. Lembro que ainda pairava um clima otimista entre meus familiares e amigos, embora a desaceleração da economia começasse a tomar corpo. Naquele ano a economia brasileira cresceu apenas 0,9%, pior resultado desde 2009.
Em 2013, fui para o Terceiro Setor e comecei a trabalhar com política esportiva. Daí eu entendi melhor a importância de um legado para os jogos e o quanto o Brasil precisa evoluir, em termos de políticas públicas, para ser um país mais justo e menos desigual.
De lá para cá percebi a maré virando. Os relatos de amigos que estavam perdendo o emprego aumentavam. Em 2015, a economia encolheu 3,8%, pior resultado em 25 anos. Eu continuava otimista, tanto que comprei ingressos para os Jogos Rio 2016 nos primeiros lotes, mas comecei a me preparar pois sabia que poderia chegar a minha vez.

Durante a crise

 
Neste ano, a minha vez chegou. Passei a integrar a estatística dos 11,4 milhões de desempregados (em São Paulo são quase dois milhões de pessoas). E não estou só. Brasil, preciso te contar. O desemprego atingiu a minha vizinha de andar. O vizinho do andar de baixo. Atingiu vários amigos e conhecidos. Quem está empregado convive com o medo do corte e com a sobrecarga de serviço causada pela falta dos que se foram.
Como eu já estava me preparando, quando o corte chegou eu estava bem melhor do que muita gente que vejo por aí. É claro que é difícil. Acredito que a pior parte da crise é a incerteza e a dificuldade em se fazer planos de longo prazo.
Mas, ao mesmo tempo, a crise me deu a oportunidade de repensar a minha vida e a minha carreira. Deu a oportunidade de ter mais tempo para estudar e refletir.
Eu me abri para pessoas novas, desenvolvi novas habilidades e, com tudo isso, virei uma profissional melhor. Tenho certeza disso e trabalho diariamente em busca de uma recolocação (sei que ela virá).

Após a crise

 
No entanto, eu temo por você Brasil, e por isso faço esta carta. Será que você aprendeu a lição? Você sairá melhor desta crise? Aproveitou esta oportunidade para repensar suas prioridades?
Acredito que um dos grandes problemas que temos hoje é a falta de um projeto de nação, da união do povo em torno de um objetivo comum, e isso ocorre por meio da educação.
Encerro esta mensagem com um artigo belíssimo de Rubem Alves que fala um pouco dessa questão. Ele escreveu uma carta ao ministro da Educação em 1998 que continua atual.
“É a beleza que engravida o desejo. São os sonhos de beleza que têm o poder de transformar indivíduos isolados em um povo. (...) Se o Ministério da Educação for só um gerenciador dos meios escolares, será difícil ter esperança. Pensei, então, que o ministério talvez tivesse poder e imaginação para integrar os meios de comunicação num projeto nacional de educação: semear os sonhos de beleza que se encontram no nascedouro de um povo. Assim, realizaria a sua vocação política de criar um povo. (...)”
Brasil, esta é a mensagem que eu gostaria de te deixar. Vem do trecho final do artigo:
“Da educação pode nascer um povo”.
* Publicado originalmente no LinkedIn Pulse

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