terça-feira, 4 de julho de 2017

Como a perda da voz ajudou a trazer o melhor de mim

Onda de som, uma das imagens mais lindas que se pode ver. Created by Freepík


No final de 2015, comecei a ouvir a pergunta:

“Você está gripada?”

Eu sabia que a resposta era não, mas, ao mesmo tempo, tinha dificuldade para entender porque a minha voz saía tão esganiçada, tensa e rouca. Eram os primeiros sinais da disfonia espasmódica.

Essa disfonia (explicando com os meus termos de leiga), é uma condição que faz com que o cérebro mande impulsos que geram espasmos nas cordas vocais, ou seja, elas estalam ao produzir o som deixando a voz com uma aparência esquisita.
Não tem cura. Existem tratamentos paliativos, como botox e cirurgia, para relaxamento das cordas vocais. Mas muitos pacientes relatam a volta dos sintomas alguns meses após esses procedimentos.

Os sinais são muito semelhantes à gagueira. Isso significa que eu pioro fico nervosa e consigo utilizar a voz normalmente quando grito ou quando canto, por exemplo.

O fato é que este problema afetou muito a minha autoestima, especialmente no ambiente profissional. Como eu sou jornalista e sempre estive acostumada com os microfones, perder a facilidade que eu tinha para falar em público foi um golpe duro, que levei um bom tempo para assimilar.

Segundo a fonoaudióloga Viviane Gilg – um dos muitos profissionais a quem tenho que agradecer por me ajudar nesta jornada de cura - a voz possui três dimensões: uma muscular, outra emocional e a terceira social. A dimensão muscular era a que estava sendo afetada diretamente, mas indiretamente as outras funções ficaram comprometidas.

Por um bom tempo tive vergonha de falar ao telefone ou de usar o áudio do Whatsapp.  Até mesmo dizer o RG na recepção de prédios era torturante, pois era difícil me fazer entender.

Porém, eu sabia que não era só isso. Na verdade, a voz indicava sinais de que algo mais profundo precisava de conserto.

Passei a fazer atividade física com mais frequência, aprendi a relaxar, a respirar, passei a ser frequentadora assídua da acupuntura. Busquei, no interior do meu ser, os sinais de autossabotagem mental (a insegurança, a mania de controle, a dificuldade em receber críticas), e passei a aceitar que os outros aceitassem a nova persona que estava surgindo.

Hoje os sintomas são quase imperceptíveis em boa parte das situações, mas eu sigo em tratamento pois eu sei que é uma condição que exige cuidados especiais e constantes.

E, mais importante do que isso, hoje sou grata à disfonia, pois graças a ela pude obter não só um novo padrão vocal, mas um novo entendimento interior.

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